Muitos fantasmas rondam a escola. Um deles é o tal do “currículo mínimo”. Quando começamos a apresentar a proposta da Politeia, muitas perguntas se repetem, algumas inquietações aparecem, é notório que existe uma certa desconfiança nesse tipo de projeto político pedagógico. Talvez a questão que mais apareça, entre educadores e familiares, é “como vocês dão conta do currículo mínimo?”

De fato que a escola se transformou numa transmissora de informações. O professor iluminado, figura principal do processo, elege as informações que julga importante, o aluno guarda essas informações e depois, o processo se fecha quando ele prova para o professor que conseguiu. Como Paulo Freire dizia, como em um banco, alguém deposita, alguém recebe. Os grandes intermediários desse sistema bancário são os empresários que souberam bem como se aproveitar dessa situação. Abrem escolas conteudistas cujo único objetivo é o acumulo de informações e o treino cruel para o ingresso na Universidade. Ou então, as editoras que criam as livros didáticos, sinônimos para o tal “currículo mínimo”, que excluem totalmente as variações regionais, a vontade e os interesses dos principais envolvidos e, principalmente, acabam com a ideia de que o conhecimento é algo construído na relação e em relação contínua de pessoas e sociedade.

E o que não está no livro? E o que não está na aula?

Mesmo com algumas tentativas por parte de algumas escolas ditas “alternativas”, que elaboram projetos pessoais, que começam a conversar sobre interdisciplinaridade, ainda se está presa no modelo do “currículo mínimo”. Fiquei me perguntando, queremos o mínimo ou o infinito??? Qual o tamanho do conhecimento??? Quem define esse mínimo???

Na realidade, fiz essa reflexão, um pouco confusa talvez, para relatar algo que aconteceu comigo esses dias. Uma lição que não está nos livros…

Somos frequentadores assíduos do Parque da Água Branca que está localizado próximo a escola. Isso acontece por diversos motivos. Por ser um parque público, por ser agradável, pelos galos e pelo pavão, pelos parquinhos, pelo Museu de Geologia, pelo Espaço Pra ler, pois dá pra correr, dá pra sentar na grama, na sombra, porque aprender ao ar livre é mais gostoso, porque brincar é o maior aprendizado que podemos ter!

Pois bem, vamos lá pelo menos uma vez por semana, as vezes até mais. Não concordamos com todas as regras de lá, mas sempre discutimos entre nós, que nem sempre criamos as regras, como acontece na escola, que o espaço democrático deve ser cavado fora da escola, seja na própria família, no futuro emprego, nas nossas relações e, claro, na nossa sociedade. Apesar de algumas discordâncias, sempre fizemos um uso respeitoso do parque.

Certo dia, uma segunda-feira de muito calor, fim de semestre, juntamos uma turma para brincar no parque. As crianças se acostumaram a andar na rua, respeitando as pessoas, sem medo. Chegam no parque e correm, nos encontramos em pontos combinados, bebemos água e seguimos. Nesse dia o rumo era o “parquinho de ferro”, como eles gostam de chamar.

Entre muitas brincadeiras, uma mulher, segurança do parque, se aproxima e diz “ridículo isso!”, se referindo a uma estudante de 12 anos que brincava em um dos brinquedos do parquinho. Ainda sem entender muito a situação, eu e outra educadora da escola, questionamos a mulher, afinal, do que se tratava? Para resumir, a tal segurança, se referia ao fato da roupa da estudante não ser adequada com a brincadeira e insinuando que ela se “mostrava” para um frequentador do parque, e ele, na cabeça da mulher, gostava disso. Tentava entender qual regra estávamos quebrando, mas parece que a conduta condenável era: uma criança, no calor, de shorts, brincando em um parque público.

Claro que a situação chamou a atenção dos estudantes… Eles ouviam atentos aos argumentos de ambos os lados…

A discussão, calma até então, prosseguia. A segurança tentava nos convencer de que havia mesmo algo de errado naquela situação, nós, educadores, queríamos perceber o que ela estava insinuando. Quando ela percebeu que não havia qualquer condenação e preocupação de nossa parte, e quando percebeu que éramos uma escola, ainda disse “é por conta de professores como vocês que o Brasil não vai pra frente!!!”, se dizendo pedagoga.

Dissemos firmes “a senhora está sendo MACHISTA” e “essa sua conduta é a mesma que culpa as mulheres pelas violências sofridas e exime da culpa seus agressores”. Sem entender nada que estávamos falando, já nervosa, chamava reforço!!!

Fizemos uma reclamação formal na administração do parque. Segundo eles, a segurança é terceirizada e especializada em cuidar de patrimônios, não pessoas. Pois bem, de quem é a responsabilidade a partir do momento que um órgão público contrata alguém para cuidar do que é público???

Ao fim, aos que conseguiram chegar até aqui, o que isso tudo tem a ver??? Como eu disse, os estudantes ouviam atentamente a discussão, alguns até conseguiram colocar explicitamente suas posições. Muitos levaram para a escola, outros para a casa. De fato, o assunto se aprofundou. Lembro de discutir com os estudantes coisas semelhantes ligadas ao racismo e a homofobia. Essa “lição” não está em nenhum livro.

Como eu disse no CONANE, não adianta vivermos um projeto lindo, uma escola linda, cheios de amor, se nossa sociedade é injusta, desigual e cruel! A escola não transforma a sociedade sozinha, ela é parte da mudança, como nós!

Quando somos criticados por sermos “radicais”, fico contente, pois a transformação que queremos é radical!

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