Sabe aquela “fugidinha” dos alunos por baixo da carteira? Será que esse ato sempre é uma fuga da atividade? Não seria essa leitura uma interpretação rápida e adulta sobre uma atitude das crianças? Não seria uma transferência das necessidades e expectativas do nosso corpo-adulto sobre o corpo das crianças? Há outras leituras sobre a fugidinha?

Pode ser um desejo da criança em mexer o corpo, um desejo de acabar rapidamente aquele assunto, um desejo de experimentar outra posição com o corpo, uma tentativa de desrespeitar o professor, uma recusa à atividade… pode ser tanta coisa.

Certo dia, no Grupo de Estudos de Vulcões, os estudantes foram um a um parar embaixo da mesa da atividade. Antes da última estudante ir, fomos eu e Osvaldo (educador). Nada foi dito contra a “fugidinha”, apenas: “ok, se vocês todos querem ir para embaixo da mesa então vamos conversar sobre vulcões sob a mesa”. No chão,  combinamos que não era possível ficar subindo e descendo toda hora.

Começamos a ver algumas imagens esquemáticas de vulcões e conversar sobre seu funcionamento. Em pouco tempo estabeleceu-se uma concentração no grupo e estávamos todos a estudar. Escolhemos imagens para discutir e perguntas surgiram ao longo da conversa acolhedora sob a mesa. Descobrimos juntos as partes de um vulcão, suas tipologias, os elementos que são expelidos durante uma erupção e os movimentos tectônicos que precedem uma atividade vulcânica. Eu e Osvaldo nos olhamos algumas vezes sem entender bem aquela boniteza que estava rolando ali. Não fomos contrários ao simples gesto “transgressor” dos estudantes. Nos juntamos a eles e desenvolvemos a atividade.

Depois da rodada de perguntas e respostas, saímos do chão e partimos para a atividade prática do nosso encontro. Nossas tarefas eram: achar uma peça que servisse de base para a  maquete do vulcão e picar jornal para fazer papel machê.

Estudar vulcões e fazer a clássica experiência de uma erupção era o desejo de um estudante que acabou contagiando todos. Na última semana, concluímos as atividades desse Grupo de Estudos com uma autoavaliação e com a realização da experiência tão esperada.

A autoavaliação – individual, em grupo e junto com educadores – passou por todos os assuntos e temas abordados ao longo do Grupo de Estudos (camadas da terra, placas tectônicas, vulcanismo) e por uma reflexão sobre a participação, a escuta, a responsabilidade e o compromisso dos estudantes com as atividades.

Em roda, no chão, em carteiras individuais, em grandes mesas, em duplas, em grupos pequenos ou grandes, no parque, em sala, no pátio… Na Politeia nos organizamos para que as atividades aconteçam em lugares diferentes e de formas variadas, fazendo escolhas sempre junto com os estudantes. Foi assim que acabamos estudando vulcões embaixo da mesa.

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