Ensinar matemática na escola é quase sempre associado aos métodos tradicionais. Mesmo ideias novas, metodologias inovadoras, sempre se apoiam nos caminhos já conhecidos e em algumas “certezas” que foram criadas: primeiro se aprende os números, depois as operações, depois as expressões e equações, e nesse meio do caminho se aprendem as medidas, a geometria plana, a trigonometria, a geometria espacial. As propostas, até hoje, encontram muita dificuldade em romper esses caminhos “naturais”. Como falar de equações se o sujeito não domina todas as operações básicas? Eu acredito que é possível.

Certa vez, na Politeia, estávamos numa trilha sobre heróis, e era difícil encontrar a matemática do tema, sem fazer relações fracas ou abstratas demais. Então, a uma certa altura daquele semestre, decidimos que, em matemática, trabalharíamos por demandas individuais: basicamente coisas que eles tivessem interesse em aprender. Com a proposta rolando, vinha demanda por aprender geometria, equações, números, etc., mas tinha um estudante especificamente que não apresentava demanda nenhuma. A cada encontro de matemática, ele entrava e saía desapercebidamente da sala. Nenhuma atividade o convencia. Ele não tinha nenhuma pergunta que quisesse trazer, nenhum interesse pela matemática.

Nos poucos momentos que ele permanecia na sala, eu tentava trazê-lo pra conversa, instigar, provocar, e nada. Até que um dia, depois de muita insistência e tentativas frustradas de fazê-lo comprar uma pergunta que não era dele, ele permanecia na sala, com os olhos parados, procurando uma brecha em que pudesse conversar sozinho comigo. Quando consegui, perguntei se ele tinha alguma pergunta, e pra minha surpresa, ele disse que sim: “Quanto tempo uma pessoa demora para dar uma volta na Terra? Eu posso calcular isso?”. Era dada a largada, finalmente eu tinha uma corda por onde puxar.

“Claro que sim! O que precisamos saber?”. Primeiro, de que maneira essa pessoa daria uma volta na Terra: se de carro, de avião, de barco. Ele escolheu que seria com as próprias pernas. Então, procuramos saber sobre a velocidade com que uma pessoa anda, em média, e também qual seria a circunferência da Terra, fazendo assim um monte de suposições e aproximações para a situação que ele gostaria de calcular. Para chegarmos na resposta trabalhamos com tantos conceitos! Só para numerar alguns: unidades de medida e conversão, circunferência, velocidade, as quatro operações, etc. Foram, talvez uns dois ou três encontros, até chegarmos numa resposta.

Depois desse episódio, ele passou pela regra de três, pelas equações de primeiro e segundo grau, pela geometria plana… Então, fico pensando no que é a matemática e em como podemos ensinar a matemática, sem dar a ela o caráter da ciência exata, no sentido de que ela é a única que conduz a uma única resposta correta, e conduz pelo caminho correto. Porque essa é a matemática que traumatiza, que exclui para sempre o sujeito, que o afasta desse conjunto de conhecimentos, embora se reconheça a importância dela para nossas vidas. O desenvolvimento do raciocínio (lógico) se dá por etapas, e acontece muito mais quando o indivíduo quer do que quando é conduzido para isso. Podemos, sem dúvida, encontrar a matemática em quase tudo aquilo que fazemos no nosso dia-a-dia, mesmo sem estarmos conscientes de que estamos fazendo matemática. Podemos também encontrar a matemática em situações hipotéticas, num exercício da imaginação, sem assumir um compromisso com a realidade. E em qualquer uma dessas situações estamos aprendendo. A experiência com os estudantes que já deixaram a Politeia tem nos mostrado que neles foi desenvolvida a capacidade de aprender qualquer conteúdo, na escola, com a escola e apesar da escola.

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