Há alguns anos a Politeia decidiu abolir os ciclos e passou a adotar outro tipo de organização. Se antes as crianças com idades parecidas tinham sua turma (multiseriada é claro) e as rotinas corriam paralelas entre esses ciclos, avaliamos e consideramos mais importante que eles escolhessem as atividades por interesse no tema e não exclusivamente pela idade.

        Foi assim que conseguimos dar asas ao currículo emergente e aberto, possibilitar mais protagonismo dos estudantes na construção desse currículo, equacionando coletivo e individual, através dos grupos de estudos. Porem, existia a dificuldade de organizar toda essa rotina aparentemente caótica, cada dia em uma sala diferente, com um grupo diferente, com um professor e suas peculiaridades didáticas. Os antigos ciclos saíram de cena e outros dispositivos entraram. Entre eles a tutoria, cujo objetivo principal é justamente situar o estudante no meio disso tudo e construir conjuntamente os valores da escola de democracia, liberdade, diversidade e sustentabilidade, sob os eixos suleadores de formação política e criação.

        Já há algum tempo decidimos em assembleia que cada tutoria teria autonomia para escolher seu nome, mas dentro de um mesmo tema. Achei legal isso, dá uma dimensão coletiva, respeitando as questões de cada grupo. Ano passado o tema escolhido foi “animais”. Me lembro que naquela época conduzi, junto com Aline, amiga e companheira de muitas jornadas pedagógicas, uma reflexão sobre qual animal escolheríamos. Porque um animal e não outro? O mais engraçado, o mais exótico, o mais bonito? Propusemos ornitorrinco. Nos parecia fundamental para aquele grupo, grande e heterogêneo, entender essa diversidade interna como algo natural e que as diferenças podem ter seu lado positivo, belo e profundo, recheado de solidariedade e empatia.

        Esse ano, surgiram algumas temas comuns como: coisas do universo, flores, cores e até animes. O tema mais votado foi “pessoas que já morreram”, como uma forma de homenagear pessoas que nos inspiram. Seguimos para o levantamento na nossa reunião e como de costume lembramos: “Vamos pensar em nomes que nos representam, lembrem-se de trazer argumentos para sustentar suas propostas”. E as propostas trazidas pelos estudantes foram: Bob Marley, John Lennon, Frida Kahlo, Roberto Bolaños (o Chespirito, criador dos personagens Chaves e Chapolin) e Charles Chaplin.

Confesso que fiquei feliz com a lista. A princípio nenhum nome me desagradava ou representava algo que me deixaria desconfortável. Mas conversando com eles, percebemos algo, um pouco sutil para a maioria das pessoas, mas com um peso muito grande na minha consciência. Da lista, tínhamos somente um negro, Bob Marley, somente uma mulher, Frida Kahlo e nenhum(a) brasileiro(a). O que isso significava?

Claro que falamos do Bob Marley como ícone do terceiro mundo, menino pobre que levou o reggae, música negra de alta consciência política para todos os cantos do globo. Pensamos nas questões existenciais presentes na obra da Frida e na coragem que ela teve em falar da posição das mulheres e de política em uma sociedade tão conservadora. Assistimos a trechos de “Tempos Modernos”, falando da exploração e alienação nas fábricas e “O Grande Ditador” brincando com o globo terrestre, como uma sátira genial aos regimes totalitários. Lembramos da Guerra do Vietnã e do discurso pacifista de John Lennon sonhando com um mundo melhor para todos. E até do Chespirito (pequeno Shakespeare) que dava vida a um menino pobre, morador de um cortiço em alguma grande cidade latino-americana. Propus que continuassemos pensando.

No fim de semana, sem grandes pretensões, procurava coisas na grande rede social e me deparei com um matéria que me chamou atenção. O título dizia: “A filha de ex-escrava que virou deputada e inspira o movimento negro no Brasil”. Eu, como a maioria das pessoas, creio, nunca tinha ouvido falar de Antonieta de Barros. Pausei por um instante sobre a foto que ilustrava a matéria e pensei: “Brasileira, mulher, negra”!!! (link para a matéria)

Fiquei pensando em todas as histórias que não conhecemos. Em todas as pessoas que não estão nos nossos livros de História, na parede da nossa sala, na estante das bibliotecas, não tocam nos nossos rádios e tampouco são estrelas de sucessos de bilheteria no cinema.

O fato é que coloquei Antonieta de Barros como proposta, defendendo justamente a ideia de que ela era brasileira, mulher e negra, com uma linda história, ainda a ser investigada mais profundamente, mas que representava algo diferente do que estávamos acostumados: o homem, branco europeu!

Depois fiquei me perguntando. Poxa, que cara chato, será que eu tenho que propor? Ainda penso muito sobre isso, mas minha resposta por ora é: SIM! Como educador, não só tenho o direito, mas o dever de propor e apresentar coisas. É minha tarefa se quero transformar o mundo. Não considero autoritário, ao contrário, considero aprisionador a ignorância e a reprodução de algo violento, injusto, excludente e opressor.

No final das contas votamos e encaminhamos. Antonieta de Barros ganhou do Bob Marley por uma pequena diferença. Eu sorrri…

Poucos dias depois, alguns estudantes queriam refazer a votação. Segundo eles, esse nome não caía muito bem. “A pessoa é legal, mas o nome é estranho” eles diziam.  Eu disse: “Isso me cheira a golpe”. Começamos a falar sobre a Democracia e até da situação política do país. Mas isso é assunto para um outro texto.

Assista um pequeno vídeo sobre Antonieta de Barros

Yvan Dourado

yvan@escolapoliteia.com.br

*esse texto pssui opiniões pessoais que não refletem necessariamente a opinião da escola.

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