“Tinha muita coisa jogada lá. Tinha coisa que as pessoas podiam doar, mas elas jogam lá. Tinha um Banana de Pijama e um computador da Barbie, coisas muito legais que eu sempre quis ter.”

Essa frase, dita pela estudante Sofia, de 6 anos, foi uma das primeiras da roda de conversa que tivemos na Escola Politeia, logo após a nossa visita à LOGA – Logística Ambiental de São Paulo.

LOGA é a e14782189472ec916007c9e8ddb597d5ffb8ff132b7mpresa responsável pela coleta de lixo nas regiões Centro, Norte e Oeste de São Paulo. Lá são recicladas diariamente mais de 90 toneladas de lixo, motivo principal que nos levou a escolher esse destino para uma das nossas saídas quinzenais.

“90 toneladas de lixo é muito coisa”, pensamos. Só que não! Pelo menos não quando descobrimos que lá chegam diariamente 6 MIL TONELADAS de resíduos comuns! Não quando entramos na sala de comando do local e pelo vidro vimos, perplexos, a montanha de detritos que nós geramos todos os dias, e que eles se encarregam de dar um destino (todo o lixo comum que chega à LOGA vai para um aterro sanitário).

A cena que se vê dessa sala, uma enorme “piscina” de restos na qual os caminhões vão jogando o que trazem, é algo difícil de esquecer. Os olhares alarmados das crianças, estáticas, caladas, observando aquele cenário sem a empolgação e descontração que lhes são costumeiras, nos chamou atenção. Percebíamos nos olhos delas um espanto e certa indignação. Indignação para com nós mesmos, pois elas sabiam que pelo menos parte do lixo produzido em nossas casas e escola também estava lá.

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Este, aliás, foi outro ponto levantado na nossa roda de conversa pós-visita. Entre falas de “consumir menos para gerar menos lixo” e “criar uma estação de reciclagem na escola”, as crianças se disseram assustadas com a quantidade de resíduos, disseram que não imaginavam que fosse tanto, e quando perguntadas quem produz aquilo tudo, foram bem diretas: “nós!”

No final, ficou a certeza da importância do trabalho da LOGA, a satisfação pela gentileza da equipe que nos recebeu muito bem, e a tristeza pelas reflexões de que a nossa sociedade caminha em uma direção muito perigosa, com seu consumo desenfreado e uma destinação de resíduos que não consegue acompanhar esse ritmo.

Mas fica acima de tudo a esperança, que mora na certeza de que temos o poder de mudar esse cenário. E como mudá-lo?

Quem nos deu a resposta foi o João, responsável geral pelas operações da LOGA. Enquanto contava sobre as dificuldades que enfrenta em seu dia a dia comandando aquela operação gigantesca, ele nos confessou que a única solução que enxerga é justamente aquele trabalho que estávamos fazendo lá: educar as gerações mais novas!

Durante nosso debate na escola, quando surgiu dos estudantes a ideia de uma feira de trocas, ou quem sabe até um amigo-secreto de trocas no fim do ano, ficamos com a sensação de que o João está certo…

* Este relato foi escrito por Danielli Lima e Patrick Silva, educadores na Politeia Escola Democrática.

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