As saídas da Politeia Escola Democrática pressupõem pedagogia, filosofia e política para todas as idades, muito além de simples tarefas didáticas. Embora incentivemos algumas reflexões, a liberdade para cada estudante definir suas próprias impressões é nossa maior intenção.

 

As experiências são intensas do início ao fim. No dia 06/09/16, saímos da escola rumo ao nosso destino primeiro a pé, depois em trem – a primeira vez, para alguns dos presentes. Chegar à Estação Júlio Prestes já é uma vivência fascinante e instigante, pelo valor arquitetônico, histórico do passado e presente: como pode aquela região exalar tanto abandono?

Apesar de toda preparação anterior, quando decidimos ir ao Memorial da Resistência sabíamos que correríamos alguns riscos com a visita. Naturalmente, qualquer criança e jovem ao estarem em ambientes diferentes aos habituais agem com descontrações, desconcentrações e desconstruções. Os adultos têm consigo o real peso e valor histórico daquele lugar, presenciá-lo é uma experiência de retorno à História de nosso país. Por isso, surgiram alguns receios:

  • E se os estudantes ficarem fazendo piadas, não se interessarem e se grudarem nos celulares?
  • E se pensarmos, o tempo todo, que não vivemos em uma Democracia justa e coisas como aquelas ainda existem veladas?
  • E se tivermos que segurar as lágrimas a cada emoção revivida pelos relatos expostos?

Sim, inicialmente reagiram como imaginávamos. Muitos estavam agitados querendo correr, outros desanimados querendo voltar. No entanto, à medida que a memória se revelou os ânimos tomaram outras formas…

Cada um foi encontrando em si quais eram suas reações diante dos corredores, das explicações, das celas, das paredes escritas, dos áudios gravados e soltos no ar. A atmosfera envolveu as almas dos presentes e dos ausentes em um só pulso, tudo ganhou amplo sentido. As palavras deram lugar a olhares, a comunicação deixou de ser oral para ser sensitiva.

Cada visitante viveu seu momento unicamente, mas como somos um coletivo forte, ao final, a sensação era de sermos um único corpo composto de diferentes matérias.

Sim, temos consciência de que em nossa jovem Democracia coisas terríveis como aquelas ainda acontecem de modos parecidos ou diferentes; porém nós estamos aqui, refletindo como agir contra elas, construindo resistências, mostrando o lado dos oprimidos, buscando a reviravolta.

Sim, seguramos muitas lágrimas ao mesmo tempo que deixamos muitas correrem. Somos assim, humanamente reais, emotivos e transparentes. Não há como ser diferente diante daqueles fatos.

Sabemos que o trabalho de formação é contínuo e há muito a se fazer.

Terminamos felizes, por proporcionamos grandes reflexões a todos ali naquele dia e à sociedade dali em diante. A criticidade ganhou mais consistência.

Antes do retorno à Politeia, fomos ao Parque da Luz extravasar as emoções, lanchar e viver mais um ponto importante da cidade.

Para terminar este relato, aproveitando que estávamos perto da casa de Oswald de Andrade, um poema do antropofágico modernista:

 

Alerta

 

Lá vem o lança-chamas

Péga a garrafa de gazolina

Atira

Eles querem matar todo amor

Corromper o polo

Estancar a sede que eu tenho d’outro ser

Vem de flanco, de lado, por cima, por traz

Atira

Resiste

Defende

De pé, de pé

De pé

O futuro será de toda a humanidade.

 

* O poema de Oswald faz parte da obra Cantico dos Canticos para Flauta e Violão, de 1942. Optamos por manter a ortografia original.

** Este relato foi escrito por Carolina Pedrosa (mãe de estudante da Politeia) e Eduardo Brandão, Francisley da Silva Dias, Patrick Silva e Yvan Dourado (educadores na Politeia).

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