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Do que acontece quando pulamos o muro da escola

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Caminhada pela Terra Indígena através de trilha na floresta.

Na Politeia pulamos o muro da escola de propósito. Pulamos o muro não para cabular aulas, mas para “encontrar” outras aprendizagens – outros lugares e pessoas. Frequentar as ruas, o transporte público, as praças e os lugares privados da nossa cidade com um olhar pedagógico traz oportunidades, objetos e formas de aprendizagem outras. A vida fora da escola é outra coisa.

O ensejo deste relato, no entanto, decorre das duas últimas atividades. A primeira era para ser uma visita à exposição “Dalí: Divina Comédia” na Caixa Econômica Cultural e ao Pátio do Colégio. A segunda foi uma visita à aldeia guarani Krucutu, às margens da represa Billings, em São Paulo. O tempo verbal dessas sentenças não é um mero deslize. Indica duas potências distintas da realização de atividades educativas fora da escola: o acaso e o choque de realidade.

Sobre a visita ao Pátio do Colégio

Após uma visita à exposição “Dalí: Divina Comédia”, propus uma atividade sobre a fundação da cidade de São Paulo e sobre a presença dos indíos e sua relação com o homem branco – os portugueses. Para isso tínhamos como material duas fotografias das pichações do monumento às bandeiras do início de outubro e – na nossa frente – o monumento à gloria imortal dos fundadores de São Paulo. Logo no início, um acaso: um morador de rua sentou-se em nossa roda. A seu modo, participou e acompanhou a atividade. Alguns estudantes ficaram espantados e alertas com a situação, outros não se afetaram com o fato. Aquele senhor falou, olhou as imagens e várias vezes pediu para que a atividade continuasse. Já no final da atividade ele deitou no chão e, simplesmente, dormiu. Tal fato trouxe lágrimas a uma estudante. Nesse ponto abri um espaço para comentários, questões, observações e percepções sobre o que havia apresentado a eles e sobre aquele espaço da cidade.

Morador de rua dorme ao pé do monumento no Pátio do Colégio durante atividade escolar no local

Falar sobre aquele senhor que ao nosso lado sentou e dormiu era necessário. Para os educadores e para os estudantes. Então, toda a história e questão dos índios esfriou e deu lugar para os moradores de rua. Enquanto educador, não havia preparado nada sobre essa temática – mas lembro de tê-la levado sem muita reverberação para a sala de aula, dois anos atrás. Esse acaso trouxe uma questão urgente, que precisava ser colocada, discutida. Ao dormir no chão da praça, aquele senhor lembrou-nos sua condição humana e foi sobre sua condição que conversamos por mais um tempo. Algumas estudantes, mais comovidas com a situação “protegeram” o morador de rua até irmos embora, com o intuito que “nada de mal” acontecesse a ele, afinal ele só estava dormindo e não havia feito nenhum mal para ninguém. Uma das protetoras antes desse acaso quando avistava um morador de rua corria apavorada e atarracava os braços dos educadores.

Ao nos colocarmos dentro da cidade, num espaço público com os estudantes, participamos da vida da cidade e pudemos pensar e analisar em seu próprio seio e seiva nossa condição de cidadãos, nossa condição de seres humanos e a forma como nos relacionamos com o próximo.

A visita à aldeia Krucutu

Depois de uma viagem de mais de duas horas pela cidade de São Paulo, nos afastamos de qualquer rastro da urbe (com exceção da rede básica de água e energia elétrica) e adentramos um cenário para mim inimaginável dentro da Paulicéia: floresta. Só o ar puro, os liquens, a vegetação já seriam subsídios suficientes para explorações pedagógicas. Só o trajeto até a aldeia – os bairros, as paisagens urbanas, as transições e mudanças da vida da cidade – era de uma riqueza pedagógica imensa. Mas fomos até ali para ter um momento com os índios guarani. Ali chegamos. Fomos recebidos inicialmente por um segurança indígena da escola infantil indígena. Depois, Olívio Jekupe chegou e foi nosso anfitrião. Conversamos por quase uma hora com ele.

Conversa com Olívio Jekupe, que falou sobre a relação dos indios guarani com a natureza, as diferenças de viver próximo a uma cidade grande e os aprendizados que o branco teve com os índios

Mesmo tendo preparado os estudantes para um possível choque cultural e tentando desarmar possíveis preconceitos, nada como uma conversa cara-a-cara com um indígena. O encontro de duas culturas estava dado ali naquela sala. Mas esse choque expandiu-se quando o indígena mostrou que nos conhecia mais do que nós a eles. Olívio retirou do peito um celular de última geração; Olívio falou que eles vivem nessa terra há 10 mil anos; Olívio falou que tomar banho, comer abacaxi, açaí, mandioca, tapioca, etc. são coisas que o homem branco ocidental aprendeu com os índios; Olívio explicou por que os índios convivem tão harmoniosamente com a natureza. Foram tantos assuntos e tantas afirmações que estudantes pensaram: o que ele chama de homem branco? se eles aprendem português e outras coisas sem escola, pra que serve a escola?

Depois dessa acolhida, o cacique Geraldino nos conduziu por uma trilha pela Terra Indígena. Passamos por um campo de futebol, um tanque de criação de peixes e algumas picadas para habitações. Na trilha era possível ouvir diferentes sons da floresta – grilos, pássaros, gafanhotos e outros insetos – e sentir o cheiro do mato, ou seja, entrar em contato com a floresta e com um lugar de vida completamente distinto do nosso tecido urbano. Nesta caminhada muitos estudantes tiveram que reconhecer e enfrentar medos, temores e restrições físicas. Muitos foram os que caíram, mas todos levantaram e seguiram em frente decididos a ir até o fim.

Apesar da visita ter durado apenas 2horas, foi uma imersão em outra realidade, completamente distinta daquele vivida nas ruas ou assistida na Tv, no youtube e nos cinemas. Não foi somente conversa sobre os guarani ou uma caminhada pela floresta, foi os dois juntos, já que ambos são uma coisa só. Não cobrem de nós educadores e estudantes fetiches indígenas. Peça nossa humilde sensação e percepção desta visita. Tivemos ali uma panorâmica – no bom sentido da palavra – da vida fora da cidade, da vida fora dos padrões ocidentais e brancos.

Caminhada pela Terra Indígena através de trilha na floresta.

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Aprender na escola, fora da escola e apesar da escola

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Escola Politeia na PUC

Parte deste título é uma provocação. Provocação que se estende a todas as escolas, incluindo a nossa é claro.

Será que estamos ensinando o que precisa ser aprendido, será que estamos ensinando alguma coisa? Será que sabemos o que precisa ser ensinado? Alguma coisa precisa ser ensinada?


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